Marcelino Chinhama Hossi
Mestrando em Ensino de História de África no ISCED-Huíla, Angola
Licenciado em Ensino de História (ISCED-Huíla); Licenciado em Teologia (Universidade Montemorelos, México)
E-mails: [email protected] / [email protected]
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-8310-0983

No mapa é um continente vasto, de rios imensos, desertos intermináveis, culturas milenares e povos incontáveis. Existe nos atlas, nos discursos diplomáticos, nas cimeiras políticas e nos livros de Geografia. Existe como conceito. Mas existirá, verdadeiramente, como consciência colectiva?
Durante séculos, África foi definida por outros. Chamaram-na “continente negro”, “terceiro mundo”, “terra de exploração”, como se o seu destino estivesse condenado a ser narrado por vozes exteriores. Até o próprio nome “África” não nasceu dos seus povos, mas foi-lhe atribuído de fora, num processo histórico em que os africanos raramente tiveram o direito de se definir a si mesmos.
Teoricamente, fala-se de uma África una. Uma vasta porção territorial composta por países que partilham traços históricos semelhantes, marcados pela colonização, pela escravatura e pela exploração externa. Contudo, basta olhar com atenção para perceber que essa unidade muitas vezes permanece apenas no discurso.
Na prática, existem várias Áfricas.
Há fronteiras que dividem povos irmãos. Há línguas coloniais que aproximam mais do que a própria geografia. Há países que cooperam apenas porque tiveram o mesmo colonizador, enquanto ignoram vizinhos com quem partilham raízes ancestrais. Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa(PALOP), por exemplo, cultivam uma proximidade compreensível pela herança linguística portuguesa; porém, não raras vezes, um angolano sente-se culturalmente mais próximo de um moçambicano do que de um zambiano ou congolês, apesar da vizinhança territorial.
Mesmo as classificações regionais — África Austral, Ocidental, Oriental, Central e Setentrional — embora úteis administrativamente, acabam por reforçar barreiras invisíveis. Aos poucos, o continente transforma-se num conjunto fragmentado de interesses, alianças e identidades dispersas.
E talvez seja precisamente aí que resida a grande contradição africana: fala-se constantemente de unidade, mas vive-se frequentemente a separação.
As desigualdades sociais, os conflitos étnicos, as guerras fronteiriças, o elitismo político e o egoísmo nacionalista revelam um continente que ainda luta para se reconhecer como comunidade de destino. Muitos dos conflitos africanos opõem povos que, antes das fronteiras coloniais, pertenciam à mesma matriz cultural e histórica.
Por isso, talvez seja mais honesto afirmar que não existe uma única África, mas múltiplas Áfricas coexistindo no mesmo espaço geográfico.
A verdadeira África ainda está por construir.
Kwame Nkrumah sonhou com uma África unida, consciente de si mesma, livre das amarras coloniais e capaz de caminhar como um só corpo político e civilizacional. Contudo, décadas após as independências, o continente continua frequentemente refém do etnicismo, da corrupção, da ambição desmedida, das rivalidades internas e da dependência externa.
África existiria plenamente se a solidariedade fosse maior do que os interesses individuais. Existiria se o tribalismo cedesse lugar ao sentimento de pertença continental. Existiria se os africanos aprendessem a olhar uns para os outros não como concorrentes ou estrangeiros, mas como extensão da mesma história.
O Dia de África não deveria servir apenas para celebrar símbolos, bandeiras ou discursos cerimoniais. Deveria ser, sobretudo, um momento de introspecção colectiva: que África estamos realmente a construir?
Talvez a resposta ainda esteja em aberto.
Mas permanece actual o apelo de um dos filhos mais audazes e estrategas que passou pelo continente negro, Menelik II: “Unamo-nos e venceremos; os fortes deem-me as suas forças, os fracos deem-me as suas preces; unidos venceremos.”
Porque, no fundo, África só existirá verdadeiramente no dia em que os africanos decidirem existir juntos.
Marcelino Hossi, africano, servo de África e do mundo.


