Mandume ya Ndemufayo: o Rei que não se ajoelhou

Almeida Pedro Tchakamba

Licenciado em Ensino da História pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla (ISCED-Huíla), Angola.
E-mail: [email protected].
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-1283-2051

Almeida

Muito antes do tempo, o rio Cunene e o vau do pembe, recusaram as vossas canoas e jangadas brancas, movidas não por amor nem por triunfo da cruz, antes pela avidez daquelas fabulosas riquezas que faziam brilhar os vossos olhares, como mercadores deslumbrados pela visão do ouro e que através de oceanos e rios não navegados desejavam nada menos do que o paraíso terrestre, que segundo os mágicos de vossa pátria, jaziam riquezas em abundância. Antes de toda esta façanha, em terras que desconheciam os vossos calçados, Mandume Ndeulikufa ya Ndemufayo já era poesia recitada em tambores distantes. Diziam que sua coragem atravessava as savanas e as florestas do seu Eumbo, até os Ovambadya, Ovandobodola, Ovauunda, Ovavale, Ovakafima, Herero, ovimbundos, Tchokwe, Lunda, Ovangangela, Damara, Zulu, Bacongo e mukongo, ouviam o ressoar de sua bravura, sua palavra tinha o peso de uma lança cravada no chão. Era ainda jovem quando foi feito Rei. Quando o bastão do poder lhe foi entregue, em 1911, a terra já sangrava, e na simplicidade de sua mente, acreditou que um Rei devia ser um pai solícito e benigno do seu povo.

Dizem os anciões que, antes de Mandume nascer, o céu demorou-se a abrir. As nuvens ficaram suspensas sobre a terra dos Oukwanyama, como um presságio, e o vento percorreu os Oshitolo, murmurando nomes que ainda não tinham corpo. Quando a criança veio ao mundo, não chorou. Fitou o fogo, e os velhos disseram: “Este não pertence apenas ao seu tempo”.
Mandume ya Ndemufayo cresceu ouvindo as histórias dos antepassados, contadas à noite, quando a lua se apoiava no chão como um escudo antigo. Aprendeu cedo que o Rei não é dono da terra, é guardião do equilíbrio, ponte entre os vivos e os mortos e os que ainda caminham no ventre do tempo.
A todos os súbditos, humildes e grandes, tratou com doçura e benevolência, como filhos amados, não como servos ou inimigos. A todos concedeu dádivas e protecção, consolou a pobreza dos pobres, satisfez ambições, perdoou culpas, mitigou penas, doou-se com olupandu ao seu povo.

Rei Mandume ya Ndemufayo, unigénito do ventre que lhe mostrou o sol, já era Rei antes de conhecer o perfume da Omongwa, escorregou em braços da realeza antes de beijar o sol, compreendeu o mundo em várias línguas, governava um reino onde a terra não era posse, mas memória. Memórias de Kambungu ka Muheya, Mushindi wa Kanene, Kavanga ka Haindongo, Kapuleko ya Kavandye, Heita Ya Muvale, Hautolonde ya Vaandya… cuja pedra polida borrifa até hoje as coisas da alma.
A sua aldeia, os hábitos e costumes de sua gente, o chão que pisava guardava os ossos dos antepassados, cada omulola conhecia o nome das crianças antes mesmo de elas nascerem. O Rei Mandume ya Ndemufayo aprendera cedo que reinar não era mandar, mas proteger o que não podia ser substituído.
Os colonos (alemãs, britânicos, portugueses) chegaram em nossa casa falando de comércio, mapas e progressos. Traziam consigo tecidos coloridos e armas que cuspiam fogo. Pediram água, Mandume deu-lhes Omalodu. Pediram pão, Mandume deu-lhes Odjove e Omavanda. Pediram aposentos, Mandume okwevapa Omukunda uuaie.

Depois de limparem a boca, exigiram tributo. Por fim, declararam posse gritando “a vossa cor não presta”, “Deus abandonou a África”, “Deus deu tudo ao seu filho branco”. “Ao negro sobrou o sofrimento, vosso destino é sofrer, Deus é branco, Deus deu-vos riqueza, aos brancos deu inteligência”.
Mandume ouviu tudo em silêncio. O seu coração não tremeu, não tremeu também sua voz. Enquanto Kalola ka Sheetekela (Chefe do Estado maior General das forças Armadas do Reino de Oukwanyama) vociferava, rogando pragas aos mindelé, pedia a Deus e aos seus ancestrais que fossem seus aliados celestes, que caminhassem à cabeça do seu exército como generais invisíveis de legiões exterminadoras.
Era por amor que Kalola ka Sheetekela se exprimia, amava infinitamente sua terra, por paixão e razão, amava sua aldeia, a sua pátria, a sua casta, o seu povo e, por isso, era constrangido a odiar aqueles que queriam destruir a sua aldeia, dominar a sua pátria, espoliar a sua casa e dispersar o seu povo.

Na noite seguinte, o Rei Mandume ya Ndemufayo reuniu o conselho. Não prometeu vitória, apenas dignidade. Disse que um povo pode perder batalhas, mas morre de verdade quando aceita viver ajoelhado.
A terra não se vende. O povo não se ajoelha. O Rei não pede licença para existir.
Ao amanhecer, os tambores falaram por ele.
. Meu coração me diz que não fiz nada de errado. Se o inglês me ama, estou aqui, eles podem vir e podem me tirar daqui. Eu não vou disparar o primeiro tiro, mas eu sou um homem e não um antílope. Eu lutarei até que minha última bala termine.

A guerra não foi breve. As armas do rei eram mais simples, mas seus guerreiros conheciam a terra como o próprio corpo. Atacavam e voavam como pássaros, resistência, não por ódio, mas por memória. Cada derrota ensinava, cada vitória custava sangue. Bravos, destemidos e valorosos combatentes triunfaram, os inimigos as apalpadelas morderam o pó das terras de Naholo de Haivinga.
O Rei Mandume ya Ndemufayo não se deixou capturar, um Rei não se captura, sem antes beijar a morte. Já era uma lenda, tentaram fazê-lo assinar um tratado, transformá-lo em símbolo de rendição. Ele recusou. Disse apenas um rei pode cair, mas não pode ensinar o seu povo a ser pequeno. Mandume deitou-se nos braços dos seus homens como quem experimentara a eternidade. Suicídio altruísta, por amor em demasia, a batalha de Oihole não o derrubou, o eternizou. Dilanda Ya Heleinge, Nahambo ya Heita, Ndeshihafela ya Mupitai, Ndeutalala ya Nghishidimbwa, derramaram rios de lágrimas, gritavam desesperadamente, porque sabiam a partida, que não há lugar suficiente no peito de uma mulher para enterrar um Rei. Nekoto la Mukapitila sabia que um Rei não morre. Nunca morre. Assim como no peito de uma mulher, na terra não há pó suficiente para enterrar um Rei.

Mas erraram, aqueles que o queriam morto.

Anos depois, nas escolas proibidas, em canções sussurradas, em nomes dados as crianças, Mandume continuava vivo. o seu rosto estampava murais, seus feitos cruzavam oceanos, o seu exemplo inspirava outros reinos, outros povos, outras lutas e outros sonhos.
O mundo passou a conhecê-lo não pelo trono, mas pela coragem de não ter-se curvado. Até hoje, na Omukunda de Embulunganga dizem que a terra reconhece seus passos livres, porque ainda se lembra do Rei que a defendeu.
Escutem!

Aproximem-se do fogo, meninos.
Esta não é uma história pequena, é a história que caminha.
Mandume ya Ndemufayo era um Rei não porque usava coroa, mas porque a terra o reconhecia. Quando ele pisava o chão, o chão não se queixava. Quando falava, os velhos inclinavam a cabeça e as crianças ficavam quietas, como se o dia tivesse parado para ouvir.
Embulunganga não tinha muros altos, tinha omulolas, florestas, tinha ossos de seus ancestrais, enterrado na alma da terra, e quem tenta possuir a terra que guarda ossos alheios, acorda espíritos que não dormem.
Os colonos mindeles chegaram empoleirados, em grandes filas como montanhas. Primeiro sorriram, Humbe deu-lhes berço. Depois mandaram. Por fim, disseram: esta terra agora tem dono.
A terra riu.
O rei não riu. Resistiu, Lutou e triunfou!

Mandume venceu porque lutou com o corpo, com a mente e com a alma de um povo inteiro. Cada golpe seu carregava a memória dos ancestrais, cada passo adiante desafiava o medo e a morte. No Oihole, não foi apenas uma batalha que terminou, foi ali que se escreveu um nome na eternidade. E enquanto o sol se punha, tingindo o horizonte de fogo e glória, ficou claro para todos: Mandume não conquistara apenas o campo de guerra. Ele conquistara a história.