Falar de Angola é reconhecer um país de enorme potencial, mas também compreender que os seus desafios estruturais continuam a limitar a velocidade do seu desenvolvimento. A riqueza em recursos naturais, a localização estratégica e uma população maioritariamente jovem colocam o país numa posição privilegiada em África. Contudo, essas vantagens, por si só, não garantem prosperidade. O verdadeiro desenvolvimento depende da capacidade de transformar recursos em oportunidades concretas para a população.
Os indicadores económicos de 2026 revelam uma realidade contraditória. Por um lado, Angola mantém crescimento económico positivo e a inflação apresenta uma tendência de desaceleração, reflexo de políticas monetárias mais restritivas e de maior disciplina fiscal. A dívida pública reduziu significativamente em relação aos níveis registados após a pandemia, demonstrando progressos na gestão macroeconómica. Por outro lado, o crescimento continua condicionado pela redução da produção petrolífera, enquanto o peso do serviço da dívida limita a capacidade do Estado para aumentar o investimento social e produtivo. O próprio Fundo Monetário Internacional alerta que a economia permanece vulnerável devido à dependência do petróleo e defende a continuidade das reformas estruturais.
A principal questão que se coloca é se Angola está, de facto, a transformar crescimento económico em desenvolvimento humano. Os dados sugerem que essa transformação ocorre de forma mais lenta do que seria desejável. Apesar dos avanços na estabilidade macroeconómica, persistem desafios relacionados com o desemprego, sobretudo entre os jovens, a elevada informalidade do mercado de trabalho e as desigualdades sociais. O Banco Mundial destaca que cerca de 80% dos empregos continuam no sector informal, realidade que reduz a produtividade, limita a arrecadação fiscal e dificulta o acesso dos trabalhadores à protecção social.
A diversificação económica continua a ser o maior teste para o país. Durante décadas, o petróleo sustentou o crescimento e financiou grande parte das despesas públicas. Hoje, porém, a redução gradual da produção petrolífera demonstra que esse modelo possui limitações evidentes. Embora sectores como agricultura, comércio, indústria transformadora, pescas e mineração apresentem sinais positivos, o seu peso ainda não é suficiente para substituir a relevância das receitas petrolíferas. A concretização dessa diversificação exige investimento privado, maior segurança jurídica, infra-estruturas eficientes e um ambiente de negócios mais competitivo.
Outro aspecto que merece reflexão é a qualidade da governação. Nos últimos anos foram implementadas reformas fiscais, financeiras e administrativas com o objectivo de reforçar a transparência e melhorar a gestão dos recursos públicos. No entanto, os resultados dessas reformas dependerão da sua continuidade e da capacidade das instituições em garantir maior eficiência, previsibilidade e responsabilização. O FMI considera que o fortalecimento da governação constitui um dos factores com maior impacto na redução do risco económico e na melhoria da confiança dos investidores.
A juventude representa simultaneamente o maior desafio e a maior oportunidade para Angola. Com uma população predominantemente jovem, o país dispõe de uma força de trabalho capaz de impulsionar a inovação, o empreendedorismo e a transformação digital. Contudo, sem investimentos consistentes na educação, na formação profissional e na criação de empregos qualificados, essa vantagem demográfica poderá converter-se numa fonte de pressão económica e social.
Também importa analisar o papel da sociedade. O desenvolvimento de uma nação não depende exclusivamente das políticas governamentais. O sector privado, as universidades, os meios de comunicação social e os cidadãos desempenham funções essenciais na promoção da inovação, da participação cívica e da responsabilização das instituições. O compromisso colectivo referido no título desta reflexão pressupõe precisamente uma corresponsabilidade entre Estado e sociedade.
Em síntese, Angola encontra-se numa fase decisiva da sua trajectória. Os progressos alcançados em matéria de estabilidade económica são relevantes, mas ainda insuficientes para responder às expectativas de uma população que aspira a melhores condições de vida. O desafio já não consiste apenas em crescer economicamente, mas em garantir que esse crescimento seja inclusivo, sustentável e capaz de reduzir desigualdades.
A verdadeira riqueza de Angola não reside apenas no petróleo, nos diamantes ou nos seus recursos naturais. Reside, sobretudo, na capacidade do seu povo em construir instituições sólidas, promover uma economia diversificada e transformar oportunidades em desenvolvimento para as gerações presentes e futuras. O sucesso desse processo dependerá menos das circunstâncias externas e mais da consistência das decisões tomadas internamente.
Por Francisco Muanza
