Observadores silenciosos: rolar, ver… e duvidar

De: Sandra Lopes Abraão

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Tudo agora ficou assim… digital até no respirar.

Quem não tem rede social é logo carimbado: ultrapassado.

Ultrapassado, como se fosse lata de sardinha fora do prazo.

Eu, para não ficar no canto da história, aceitei o conselho da Kafuxi.
Abre LinkedIn — disse ela, com aquele ar de quem já tem diploma até no olhar.
E eu, como sei que ela é chô Dra., nem discuti. Abri.

Dizem que lá é onde as pessoas crescem… não em altura, mas em título.

É rede de contactos, dizem. Rede… mas às vezes parece mais rede de apanhar sonho alheio.

Entrei.
Mas até hoje… não estou a perceber nada.

Uma tal de Júlia aparece logo a pedir para eu assinar premium — parece cobradora de táxi azul sem troco.

A Dra. Mara Oliveira ensina como ser profissional de sucesso… sucesso que parece coisa que só acontece aos outros.

O Teodoro Lucas só gosta, geralmente, ele não fala, só confirma que existe.
E a Kâmia… ah, essa já subiu de cargo outra vez. Nem deu tempo de eu entender o primeiro.

Foi aí que a ansiedade começou a morar comigo.

Entrou sem pedir licença. Instalou-se.

O LinkedIn… aquilo não é rede social, não.

Aquilo é passarela com tapete vermelho digital.

Cada perfil é desfile.

Cada foto, sessão de estúdio.

Cada sorriso… parece campanha eleitoral.

Ali, todo mundo é “especialista”.

Especialista em quê? Até hoje não sei.

Tem “líder estratégico”, “pensador inovador”, “visionário disruptivo” …

Palavras tão grandes que até assustam currículo pequeno.

As descrições dos cargos?

Meu Deus… aquilo já não é promoção, é inflação — quase precisa declaração na AGT.

E eu… eu só a rolar.

Rolar.
Rolar.
Rolar.

Foi assim que entrei no grupo dos observadores silenciosos.

Nós não falamos.

Nós reagimos por dentro.

Quando vemos alguém a ser promovido, não dizemos nada…
mas por dentro parece anúncio do Jornal de Angola:

“Aqui jaz o meu sonho profissional.”

E mesmo assim comentamos:

“Sucesso no novo desafio!”

Mentira educada.

Dor bem-vestida.

Os cursos online aparecem lá como medalhas olímpicas.
Um certificado de duas horas vira conquista de vida inteira.

E as recomendações?

Ah… aquilo é recreio de escola.

“Endosso as suas competências.”

“Obrigado pelo endosso.”

“Também endosso.”

Troca de pão com manteiga digital.

E eu ali…

“Murtadas, um ponto para procurar no dicionário o que é endosso.”

Enquanto isso, vou actualizando o meu currículo pela décima vez na semana…
a ver se alguém me descobre.

Mas ninguém descobre quem ainda não se encontrou.

Cansada, fugi para o Facebook… a pensar que ia descansar.

Mas o Facebook é outra coisa.

É álbum de família… só que sem poeira, sem rasgo, sem verdade inteira.

Ali, todo mundo é feliz.

“Acordei mais.”

“Somando e seguindo.”

“Quem me protege não dorme.”

E os dentes?

Todos à mostra. Até quem nem gosta de sorrir, sorri.

Mas de vez em quando aparece um post misterioso:

“Há coisas que só Deus sabe…”

E pronto. Começa o interrogatório:

“O que aconteceu?”

“Fala connosco.”

“Força!”

Drama de novela… sem episódio final.

E eu a pensar:

Será que o meu matabicho de chá com pão seco merece publicação?
Ou a minha vida é só vida mesmo… sem filtro, sem legenda bonita?

Depois tem o WhatsApp…

Esse já não é rede. É aldeia.

Aldeia com megafone.

De manhã:

“bom dia,  meus contactos”

Correntes que viajam mais do que o Angosat.

Desaparecidos que desaparecem e reaparecem mais do que político em campanha.

Grupos familiares? Campo minado.

Áudios longos… mais longos que sessão da Assembleia Nacional.

E sempre tem aquele empreendedor da nova era:
“Minhas bonitas da zap, pedidos abertos!”

Ali, todo mundo vende alguma coisa… até esperança a prestação.

E eu?

Eu escrevo mensagem… apago.

Escrevo… apago.

Medo de parecer deslocada…

num lugar onde todo mundo também está perdido.

Foi então que me vi ali, no meio daquilo tudo
a comparar a minha vida real com a vida editada dos outros.

E doeu.

Doeu perceber que eu estava a viver menos…

só porque os outros pareciam viver mais.

Doeu perceber que eu estava a procurar aprovação…
num lugar onde quase ninguém é verdadeiro.

Era como correr descalça…

contra gente que está de carro.

E pior: eu nem sabia para onde estava a correr.

No fim das contas, entendi:

LinkedIn é vitrine.

Facebook é máscara.

O WhatsApp é barulho.

Mas por trás disso tudo… tem gente.

Gente de carne, osso e dúvida.

Gente que também não sabe como terminar relatório,
nem como agradar chefe que se faz de chefe.

Por trás da foto perfeita… tem quarto desarrumado.

Por trás do “estou feliz” … tem silêncio.

Por trás do “ok” … tem cansaço.

E nós aqui… a comparar o que é vivido com o que é encenado.

Então decidi parar.

Parar de entrar de perfil em perfil.

Parar de medir a minha vida com régua dos outros.

A minha vida não precisa de filtro.

Precisa de verdade.

Porque vitrine bonita mesmo… é aquela que não mente.

E a minha mesmo simples é real.

E isso…já é muita coisa.

In: 《Murtadas, um ponto para um conto 》