Dia de Sol

De: Luciano Eufórico

Retrato Descontraido De Um Homem Africano

Eu sei,
o sol há de nascer.
Mesmo que tarde,
mesmo que demore,
em algum dia…
o sol vai nascer.

Vai nascer sobre os prédios cansados de Luanda,
sobre os becos apertados onde a fome se esconde,
sobre o pó vermelho dos caminhos do interior,
onde os pés descalços aprendem cedo a resistir,
sobre o tombo de um mundo em escombros.

Vai nascer sobre o rio Zenza em Kifangondo,
que corre entre memórias de guerra e esquecimento,
sobre águas que já viram sangue e promessas,
e ainda assim seguem, como quem não desiste do mar.

Vai nascer nas torneiras que jorram água suja,
onde a sede aprende a aceitar o impuro como destino,
onde se bebe esperança misturada com ferrugem.

Vai nascer para a criança de cabelo amarelado,
que cresce cedo demais entre poeira e silêncio,
com olhos que perguntam por um futuro
que ninguém consegue explicar.

Vai nascer para o jovem desempregado
que perde o dia nas esquinas da cidade,
e às vezes se perde também no caminho,
quando o abandono vira impulso
e o impulso vira delito.

Vai nascer para o antigo combatente,
que já não carrega arma,
mas carrega no corpo inteiro
as guerras que o país esqueceu
e agora estende a mão
onde antes erguia bandeiras.

Vai nascer para os importantes,
sentados à sombra do poder,
e para os humildes,
que carregam o mundo nos ombros.

Para os abastados,
de mesas sempre postas,
e para os comuns,
que contam moedas antes do pão.

O sol,
há de nascer para mim,
há de nascer para ti.
Mesmo que hoje pareça mentira,
ele nascerá para todos.

Em algum dia…
as trevas hão de recuar.
Não porque o mundo será justo de repente,
mas porque alguém ainda insiste em sonhar.

Este dia não é hoje.
Hoje ainda há filas,
há crianças sem caderno,
há mães que cozinham esperança
em panelas vazias.

Hoje ainda há ruas que choram silêncio,
há vozes caladas pelo cansaço,
há corpos que dormem sem descanso
e acordam sem escolha.

Mas esse dia
não está longe.

Ele vive no íntimo
de quem não desiste da lavra,
mesmo quando a chuva falha.
De quem atravessa a cidade inteira
para vender o pouco
e voltar com quase nada.

Está no peito de quem diz,
mesmo com os olhos cansados:
o sol há de nascer.

E quando nascer…

o rio Zenza deixará de ser apenas memória ferida,
e a água correrá sem vergonha nem medo.
As torneiras deixarão de chorar ferrugem,
e a sede não será punição diária.

A criança de cabelo amarelado
brincará sem peso nos ombros,
sem aprender cedo demais
o que deveria vir depois.

O jovem não será empurrado ao desvio
pela ausência de caminhos,
e o antigo combatente
não estenderá a mão por esquecimento,
mas por descanso merecido.

Veremos flores onde hoje há poeira,
verde onde hoje há sede,
vida onde hoje há espera.

O rio correrá sem exploração,
sem esbanjar desigualdade,
sem carregar nas margens
o contraste brutal da sobrevivência.

E o esplendor…
ah, o esplendor será simples —
sem correntes invisíveis,
sem dentes à espreita,
sem humilhações diárias
vestidas de normalidade.

Longe do riso que fere,
longe da mão que explora,
longe de tudo
que nos ensina a viver pela metade.

O sol há de nascer.
E eu guardo essa certeza
como quem guarda água
em tempo de seca.

Dentro de mim
ainda há luz verde.

Mesmo entre sombras,
mesmo entre ausências,
eu sei:

o sol vai nascer.

E quando nascer…
não será apenas manhã
será recomeço.

Será, enfim,
um verdadeiro
dia de sol.