Leopolde Fernandes de Deus Mahapi
Doutorando em Ciências Sociais (Opção: História), Faculdade de Ciências, Universidade Agostinho Neto (UAN), Luanda, Angola.
E-mail: [email protected].
O texto incide sobre a problemática dos povos e culturas não bantu de angola: o caso sócio-cultural dos !Kung. No artigo, a área sócio-cultural é vista como um fenómeno flutuante em movimento, que reflecte a dinâmica de um povo para compreender sua realidade social mutante.
Povos e culturas não bantu de angola o caso da área sócio-cultural dos !Kung
Os estudos sobre os povos e culturas não bantu de angola, desde a elaboração do Esboço da Carta Étnica de Angola aos nossos dias, levantam alguns problemas preliminares: epistemológicos, metodológicos e hermenêuticos. Neste sentido, considero existir duas grandes correntes. Por um lado, os estudos que se situam numa perspectiva epistemológica em que os povos e cultura não bantu de angola são vistas numa perspectiva essencialista (estática), isto é, povos com identidades fixas e imutáveis, portadoras de uma ‟cultura tradicional” rígida, separadas e claramente definidas em relação aos grupos bantu, ligadas a características consideradas permanentes (língua, práticas, território). Por outro lado, a perspectiva dinâmica em que os povos não-bantu de angola são entendidos como grupos em constante transformação, conectados a redes de contacto com populações bantu, pelos europeus, pela colonização e pelas guerras, sujeitos a migração, conflitos, mudança económica e influência estatal, produtores de identidades situacionais e flexíveis. Neste texto vou tentar mover-se e situar a minha abordagem na esteira da segunda perspectiva, homenageando três figuras paradigmáticas: Kajibanga, V. (2004), Coelho, V. (2015) e Kwononoca, A. (2019), do meu ponto de vista, clarificaram uma perspectiva metodológica e epistemológica endógena para o estudo dos povos e culturas não bantu de angola.
O merecimento de Coelho (2015), reside na A classificação etnográfica dos povos de Angola, isto é, efectuou um levantamento o mais exaustivo possível sobre a «classificação étnica» dos povos de Angola.
Kajibanga (2004:95), no seu artigo, caracteriza o mérito de Gonçalves, (2003:11-12) da seguinte maneira:
‟Partilho do ponto de vista, segundo o qual o pressuposto para a revisão e estudo dos espaços socioculturais e culturas e comunidades étnicas deve ser o reconhecimento de que ‟as etnias são” significantes flutuantes”, ou seja, uma categoria de análise, um conceito dinâmico que permite compreender uma realidade social mutante. São realidades fluídas em movimento”.
Kwononoca, (2019:118), chama a nossa atenção para o facto dos estudos dos !Kung analisar as mudanças operacionais na esfera social, cultural, linguística, e económica, ocorridas em diferentes etapas. Primeiro, tem a ver com as causas muito remotas, consubstanciadas pela pressão exercida pelos bantu na sua migração do Norte ao Sul, que empurraram os !Kung para zonas inóspitas, algumas delas com poucos recursos para manter o seu modo de vida de caçadores, recolectores. Segundo, tem a ver com as causas modernas como a colonização. Finalmente, tem a ver com a guerra colonial (desde 1961 a 1974) e civil (de 1975 a 2002). Esse conflito armado que durou mais de 27 anos, transformou o ‟habitat natural” dos !Kung, em teatro das operações militares. A procura de segurança das suas vidas, forçou circunstancialmente uma grande mobilidade dos !Kung no interior de Angola, concretamente das Províncias da Huíla, Kunene e Kuandu Kubango. De facto, o conflito armado causou movimentos de populações !Kung em larga escala, que conduziram, em algumas áreas, a um influxo de bantu em terras antes propriedade das !Kung. Muitos fugiram do seu país em diferentes alturas e números significativos juntaram-se a diferentes forças, como atrás foi referenciado. Como consequência, os contactos, interferências e absorção de elementos socioculturais exógenos.
Acredito ser de igual modo indispensável rever o próprio conceito de espaço sócio-cultural. Numa investigação sobre cultura tradicional bantu, Altuna (1993:20) assinala por área cultural o ‟espaço abrangido por culturas semelhantes”. Segundo a perspectiva do mesmo autor, trata-se de semelhanças relativas, ‟pois depende bastante dos aspectos focados: económico, religião, sistemas políticos ou processos técnicos”. À luz deste entendimento preliminar sobre o conceito de área sócio-cultural, consideramos importante questionar o conceito de dinâmica e mudança sócio-cultural para definir o espaço sócio-culturaol !Kung, isto é, angolano. Na verdade, temos em Angola o espaço sócio-cultural com característica transnacional: o espaço sócio-cultural Khoisan ou Hotentote-Bochimane, onde se inscrevem os povos Kede, !Kung, Bochimanes e Kazama. Talvez esse espaço sócio-cultural e comunidade étnica de referência sejam hoje comunidade e espaço sócio-cultural transitório, onde confluem, fruto das dinâmicas e dos processos societários dos últimos anos, vários elementos ainda não estudados que estão tomando novas configurações sociais e culturais.
Conclusão
Nesta base, defendo uma epistemologia, uma metodologia e uma hermenêutica alternativa, que possa trazer um olhar dinâmico sobre a realidade dos povos e cultura não bantu de angola: o caso sócio-cultural dos !Kung.
Bibliografia
Altuna, R. R. A. (1993). Cultura tradicional banto. (2ª ed.) Secretariado Arquidiocesano da Pastoral, Luanda.
Coelho, Virgílio. (2015). A classificação etnográfica dos povos de Angola (1.ª parte). Revista Angolana de Ciências Sociais. Mulemba, 5(9).
Kajibanga, V. (2004). Etnias, Dinâmicas Socioculturais e Direito Costumeiro. Revista de Ciências da Educação e Estudos Multidisciplinares. Kulonga, n.º 3, pp 87.
Kwononoka, A. (2019). Os !Kung de Angola. História e dinâmicas sócio-culturais. Cuimbra Dissertations.




